Há uns tempos roubei um livro à prateleira da minha irmã, para ler enquanto devia estar a estudar, desculpando-me assim de não o fazer.
Era um livro pequeno mas surpreendentemente lúcido. Daqueles livros que fundam a sua grande virtude na capacidade de estruturar e organizar ideias, em nós dispersas. O livro chamava-se Abrigos, foi modestamente editado (mil exemplares) pelas Edições Cotovia e reúne em si uma selecção de crónicas e palestras, escritas e dadas, respectivamente, por António Pinto Ribeiro (APR).
Não era um livro de fácil compreensão, nem foi escrito para ser vendido. Foi escrito, isso sim, para preencher mais uma lacuna de conhecimento, não se dirigindo portanto ao público em geral, mas àquele que nele estivesse interessado (ou que lhe pusesse a mão por acaso - como eu). Confesso que exige do seu leitor um nível de conhecimento intelectual superior, o que de vez em quando me exasperava a meio da sua leitura, tanto pela minha ignorância como pela relativa vaidade da sua escrita. Outra coisa não seria no entanto de esperar, de um livro dirigido a um público tão específico, através do qual nada faria mais sentido senão que o escritor aproveitasse ao máximo, a possibilidade de expor despreconceituosamente as suas ideias. De certa forma, o livro foi pouco "tirado" não por falta de qualidade do seu conteúdo, mas por se dirigir a uma qualidade de público pouco abundante no nosso país.
As várias crónicas e artigos e adaptações escritas de palestras, que compõem o livro, centram a sua atenção no entendimento (mais do que no estudo) do estado em que se encontra a Cultura em Portugal. António Pinto Ribeiro joga assim com inúmeras variáveis abstractas (qualidade da cultura, estilos de cultura - cultura de massas e cultura restricta, papel da cultura no bem-estar das sociedades, relação da cultura com a política, entre outras) balanceando-as com notável agilidade e acutilância e expondo-nos a sua interpretação pessoal, de inegável valor, de uma forma inquietantemente clara. Digo inquietante porque o retrato com que no final se nos deparamos é isso mesmo (aflitivo até!).
Lembrei-me de referir este livro porque no Sábado o SLB ganhou:
É que numa das crónicas editadas em Abrigos, APR consolida e ilumina em três resumidas páginas, uma mistura de impressões que há já algum tempo, dijunta e obscuramente, habitavam a minha cabeça. De forma ainda mais sintética, aqui exponho os traços gerais da crónica:
Populismo é o nome da epidemia que ultimamente se tem imposto na mentalidade da nossa (europeia) sociedade. Surgiu na América do Sul sob a forma de manifestações sociais de grande aparato. Na Europa civilizada transformou-se em ideologias políticas extremistas, tais como o fascismo italiano ou certas correntes socialistas. Associava-se pois o Populismo, à manifestação de povos com graves dificuldades de sobrevivência, que assim tendiam a apoiar-se em ideologias extremistas, como que depondo na revolução àquelas subjacente, a tarefa da resolução dos seus problemas. Hoje em dia o Populismo já não é só sintoma de pobreza física e material, propagou-se (mutou-se como uma bactéria!) e adaptou-se ao novo estilo de vida das sociedades: deixou de ser "um reflexo de sistema, transformou-se agora numa ideologia com instrumentos de disseminação.". O Populismo de hoje em dia é uma "forma de fascismo 'light', que utiliza a TV generalista, uma comunicação reduzida ao slogan e o estabelecimento de uma relação emotiva com os cidadãos", porque é aí que o ele nasce: na necessidade sentimental do cidadão, de encontrar um sustento emocional, quão receptivo quanto desejável.
A era do consumismo gerou sem dúvida uma mudança nas expectativas das populações em relação à Cultura: o expectador deixou de ser "humano", para passar a ser um "consumidor" de arte. Até neste campo as "regras do jogo" mudaram! Nesta sociedade do consumismo, a aspiração das empresas é o lucro. Isto transformou as organizações culturais e todo e qualquer meio de difusão de cultura, em autênticos instrumentos de propagação do Populismo: a grande maioria da cultura hoje em dia produzida pretende, não mostrar-se ao seu expectador, sujeitando-se à sua avaliação, mas poupar-se a isso mesmo, oferecendo-lhe aquilo que sabe que ele aceitará em maior quantidade, isto é, aquilo que lhe trará maiores lucros!!
Assim se vive no Reino do Populismo: a TV passa o Big Brother e o país chora quando Marco pontapeia Célia, e sofre de stress e ansiedade quando Cinha ameaça sair da casa, e vai a correr ao Hipermercado comprar as bolachas que têm x camadas de chocolate, e vive como se fossem suas as vidas reinventadas das revistas cor-de-rosa, e, mais grave de tudo, o povo fica-se por aí: não há mais nada, não se lêem revistas cor-de-rosa no autocarro a caminho de uma peça de teatro, nem se comenta o facto do Zé Maria ter ameaçado (quem?) suicidar-se para depois passar a temas mais interessantes, o Populismo é o princípio e o fim.
Mas mentia há pouco: a questão pode-se agravar ainda mais quando o Populismo ousa tocar os temas mais sérios da sociedade. Que o Populismo reine nos serões estupidificantes das casas dos portugueses, já é mau mas suporta-se. Porém, aquele Populismo que pessoas conhecidas e ideologicamente influentes, como Mário Soares ou Francisco Louçã, tossem cá para fora, é muito mais nocivo e muito mais perigoso e muito mais incontrolável. Apreciar um bom filme é muito mais difícil que apreciar um mau filme, até porque este não se aprecia, consome-se. Da mesma forma, entender e criar uma opinião pessoal acerca de um discurso bem estruturado e bem argumentado e com bases de conhecimento válidas, é uma tarefa sobejamente mais complicada, que ouvir os discursos publicitários enganosos e falaciosos, dos líderes políticos que referi.
Outro grave problema do Populismo é que este fundamenta parte da sua razão de ser, quando reescreve a realidade político-social actual da forma que mais lhe convém. Concretamente, o Populismo incute nas suas vítimas a ideia de que a democracia é um bem adquirido pelas sociedades e que está já estabelecida. Mas "a democracia é um regime incompleto em contínuo e necessário aperfeiçoamento". Assim, o Populismo através da assumpção da democracia como um bem que deve ser a priori adquirido e um direito de todos os cidadãos, gera uma insatisfação nas populações que as induz à inevitabilidade de se revoltarem. Daí a necessidade que Mário Soares tem, de se referir a ícones políticos da nossa sociedade, como "grandes democratas" e de justificar as suas ideias políticas (como aquela segundo a qual, Portugal já teria sofrido um golpe de Estado militar, não pertencessemos - sorte a nossa! - à União Europeia), por serem necessárias à garantia de um estado de democracia, que, segundo ele, se perdeu e se perde a cada momento.
Não se julgue porém, que o Populismo é emanado de forma inocente, o Populismo é uma forma de acção obscura, é uma autêntica ditadura dos sentimentos, ataca no subconsciente frágil das pessoas pouco treinadas no exercício do intelecto, promete-lhes momentos de verdadeiro bem-estar, como qualquer droga, só que neste caso a ressaca é geral...!
O futebol transformou-se em puro Populismo e, por isso, o Benfica (a maior fatia do "futebol" português) é também fonte de Populismo. É também por isso que não suporto ver o Benfica vencer: não que tenha alguma coisa contra a equipa do Sport Lisboa e Benfica, simplesmente não aguento a sujeição ao Populismo que essa vitória gera, não suporto ver "preto no branco" a dependência emocional do povo português na vitória do Benfica. Porque a festa de sábado à noite não é natural, não é de um povo são, é antes de um povo que vive para o Benfica do princípio ao fim, que vive o Populismo desde o seu início até ao seu termo.
PCH