Elias
Se há coisa de que sempre tive pena é de não conseguir trazer comigo, debaixo da minha língua ou arrumado entre os dentes, um bom punhado de histórias, daquelas engraçadas, caricatas e pouco comuns, para contar assim que me pareçam oportunas. Histórias daquelas que caem sempre bem a meio de uma conversa, seja para engatar uma menina, seja para tornar o ambiente de um jantar mais leve e bem-humorado. Histórias que são puros relatos da vida comum, satiricamente desbobinados.
Tenho-me pois perguntado se serei menos vivido que esses homens de barba rija e voz serena (porque é assim que eu os pinto em minha consciência), cuja língua está já lassa de tantas coisas engraçadas narrar. Se esses colossos da vivência, realmente tiveram a sorte de se verem deparados com situações absolutamente recombolescas e, ainda que maçadoras no momento em que se desenrolaram, perfeitamente hilariantes quando saídas da boca da afortunada vítima. Ou se simplesmente gozam do dom inato, de conseguir transformar o comum, num grotesco inspirado e divertido.
Ainda não sei, mas temo que seja a segunda suposição a correcta; o que muito me desanima porque vejo assim descartada a hipótese de alguma vez aspirar sequer a ser um homem-de-barba-rija-e-voz-serena-que-conta-histórias-com-piada, já que o dom destes é isso mesmo: um Dom (que eu não tenho!). Mas não vos maço mais com isto, vou antes contar-lhes uma história verídica com piada:
Certo dia, estava eu a caminho da Downtown Lisboa para fazer umas compras. Mentira!: Estava eu parado, à espera do autocarro, para me por a caminho da Downtown Lisboa para fazer umas compras, quando me vejo confrontado com a mais embaraçosa das situações: um senhor (assim o chamo apenas por respeito) escanzelado, dos seus 67 anos, talvez menos, barba grisalha e despenteada, auntêntica continuação de um cabelo em vésperas de inverno (rematado por um penacho amarrado por um elástico cor-de-rosa), dentes amarelos e quase inexistentes, envergando todo ele o fanatismo hippie dos anos 1950 (calças com um motivo indiscritível a 256 cores, ameaçando desintegrarem-se a cada esvoaçada passada, t-shirt de alças tamanho 8 anos, aparentemente de flanela (ou coisa que o valha!) e cheia de borbotos, sandálias de couro castanho todo ele "partido" pelo uso claramente além do prazo de validade e, ao peito, o dístico da Paz, preso ao pescoço por um atacador com nós a mais.) inicia a sua marcha decidida na minha direcção. A larga distância - 50 metros - que me separava do homem condedia-me ainda algum conforto. Porém - 30 metros -, os gestos furiosos que aquele ser disferia no ar, apontando acusadoramente na minha direcção e proferindo monossílados encadeados, espaçados por impropérios que eu apenas vagamente, e com alguma boa vontade, entendia, depressa me deixaram inquieto. Já lhe sentia o cheiro - 10 metros - quando me apercebi que aquele maluco me queria mesmo mal, e que, de entre alguns dos gestos que ele desenhava no ar se podiam nitidamente distinguir socos que apontavam na minha direcção - 2 metros - O homem queria bater-me!! 10 centímetros - só tive tempo de desviar-me, enquanto um típico português, daqueles que dobram 3 vezes o jornal, para depois o enfiar debaixo duma das axilas, empurrava o meu agressor para trás mandando-o ir dar uma volta. “Eu já o conheço! Deixe estar que ele não faz mal, é só maluco!” – dizia-me o português entretido com a situação – “Não se assuste!” – continuava – “E´só o susto...!” – ouvia-o eu ainda dizer. Que palerma! “É só o susto!”?! O gajo é parvo: por uma unha negra (de 10 centímetros) não levei com um um monte de ossos bem no meio da cara e aquele palhaço diz-me que foi só um susto e que já conhece o hippie?! Mas então estava à espera de quê? De me ver levar um "banano" e depois partir-se a rir porque “já o conhece”?! Apeteceu-me espetar-lhe um selo a ele e perguntar-lhe se o tinha assustado, mas fiquei-me apenas pelo sorriso amarelo e parvo.
Hoje em dia vemo-nos regularmente, eu e o velho, e regularmente o homem me espanca a 100, 30, 74 metros de distância, seja o que for, o homem não perde uma para me dar uma boa sova. Não sei que lhe fiz, mas sei que não estava sozinho quando o fiz, porque a cada 5 minutos o velho encontra mais uma vítima que vai assustando ou não, conforme o grau de "amizade" que existir entre os dois. Ele é o pânico aqui do bairro e eu chamo-lhe Elias!
Tenho-me pois perguntado se serei menos vivido que esses homens de barba rija e voz serena (porque é assim que eu os pinto em minha consciência), cuja língua está já lassa de tantas coisas engraçadas narrar. Se esses colossos da vivência, realmente tiveram a sorte de se verem deparados com situações absolutamente recombolescas e, ainda que maçadoras no momento em que se desenrolaram, perfeitamente hilariantes quando saídas da boca da afortunada vítima. Ou se simplesmente gozam do dom inato, de conseguir transformar o comum, num grotesco inspirado e divertido.
Ainda não sei, mas temo que seja a segunda suposição a correcta; o que muito me desanima porque vejo assim descartada a hipótese de alguma vez aspirar sequer a ser um homem-de-barba-rija-e-voz-serena-que-conta-histórias-com-piada, já que o dom destes é isso mesmo: um Dom (que eu não tenho!). Mas não vos maço mais com isto, vou antes contar-lhes uma história verídica com piada:
Certo dia, estava eu a caminho da Downtown Lisboa para fazer umas compras. Mentira!: Estava eu parado, à espera do autocarro, para me por a caminho da Downtown Lisboa para fazer umas compras, quando me vejo confrontado com a mais embaraçosa das situações: um senhor (assim o chamo apenas por respeito) escanzelado, dos seus 67 anos, talvez menos, barba grisalha e despenteada, auntêntica continuação de um cabelo em vésperas de inverno (rematado por um penacho amarrado por um elástico cor-de-rosa), dentes amarelos e quase inexistentes, envergando todo ele o fanatismo hippie dos anos 1950 (calças com um motivo indiscritível a 256 cores, ameaçando desintegrarem-se a cada esvoaçada passada, t-shirt de alças tamanho 8 anos, aparentemente de flanela (ou coisa que o valha!) e cheia de borbotos, sandálias de couro castanho todo ele "partido" pelo uso claramente além do prazo de validade e, ao peito, o dístico da Paz, preso ao pescoço por um atacador com nós a mais.) inicia a sua marcha decidida na minha direcção. A larga distância - 50 metros - que me separava do homem condedia-me ainda algum conforto. Porém - 30 metros -, os gestos furiosos que aquele ser disferia no ar, apontando acusadoramente na minha direcção e proferindo monossílados encadeados, espaçados por impropérios que eu apenas vagamente, e com alguma boa vontade, entendia, depressa me deixaram inquieto. Já lhe sentia o cheiro - 10 metros - quando me apercebi que aquele maluco me queria mesmo mal, e que, de entre alguns dos gestos que ele desenhava no ar se podiam nitidamente distinguir socos que apontavam na minha direcção - 2 metros - O homem queria bater-me!! 10 centímetros - só tive tempo de desviar-me, enquanto um típico português, daqueles que dobram 3 vezes o jornal, para depois o enfiar debaixo duma das axilas, empurrava o meu agressor para trás mandando-o ir dar uma volta. “Eu já o conheço! Deixe estar que ele não faz mal, é só maluco!” – dizia-me o português entretido com a situação – “Não se assuste!” – continuava – “E´só o susto...!” – ouvia-o eu ainda dizer. Que palerma! “É só o susto!”?! O gajo é parvo: por uma unha negra (de 10 centímetros) não levei com um um monte de ossos bem no meio da cara e aquele palhaço diz-me que foi só um susto e que já conhece o hippie?! Mas então estava à espera de quê? De me ver levar um "banano" e depois partir-se a rir porque “já o conhece”?! Apeteceu-me espetar-lhe um selo a ele e perguntar-lhe se o tinha assustado, mas fiquei-me apenas pelo sorriso amarelo e parvo.
Hoje em dia vemo-nos regularmente, eu e o velho, e regularmente o homem me espanca a 100, 30, 74 metros de distância, seja o que for, o homem não perde uma para me dar uma boa sova. Não sei que lhe fiz, mas sei que não estava sozinho quando o fiz, porque a cada 5 minutos o velho encontra mais uma vítima que vai assustando ou não, conforme o grau de "amizade" que existir entre os dois. Ele é o pânico aqui do bairro e eu chamo-lhe Elias!


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