O Bar do Elias

domingo, julho 03, 2005

Cidades Impossíveis

"Os antigos construíram Valdrada nas margens de um lago com casas todas varandas umas por cima das outras e ruas altas que fazem assomar à água os parapeitos em balaustrada. Assim o viajante ao chegar vê duas cidades: uma direita sobre o lago e uma reflectida e de pernas para o ar. Não existe nem acontece coisa numa Valdrada que a outra Valdrada não repita, porque a cidade foi construída de modo que todos os seus pontos fossem reflectidos pelo seu espelho, e a Valdrada na água contém não só todas as estrias e os remates das fachadas que se elevam por cima do lago, mas também o interior das casas com os tectos e os pavimentos, a perspectiva dos corredores, os espelhos dos armários. (...)
O espelho ora aumenta o valor às coisas, ora o nega. Nem tudo o que parece valer muito por cima do espelho consegue resistir quando espelhado. As duas cidades gémeas não são iguais, porque nada do que existe ou acontece em Valdrada é simétrico (...). As duas Valdradas vivem uma para a outra, olhando-se continuamente nos olhos, mas não se amam." - Italo Calvino, "As Cidades Invisíveis"

O que é bom neste livro é que ele é isto e mais nada: não há segundos e terceiros sentidos, não há metáforas, não há ironias. As cidades são descritas de forma despegada, são apenas fruto da imaginação ainda liberta de preconceitos. A descrição nasce do prazer do autor em descrever, em materializar em escrita uma imaginação fértil aparentemente inacabável. Este livro é puro, é um livro que apetece ler, porque tal como muitos outros livros nos absorve nas suas estórias, mas mais do que a maior parte dos outros faz-nos sentir bem ao fazê-lo: não nos pesa na mente com mais intrigas, com mais acusações à realidade, com constantes conotações entre o livro e o mundo que o rodeia entre a fantasia e a desgraça. Este livro apenas liberta. Não seria estrictamente necessário ter-se nascido ou pertencido a este mundo para que pudéssemos gozar toda a magniute desta obra.
PCH