O Bar do Elias

sábado, maio 21, 2005

A História de um Grão de Café Torrado.

Os gãos de café torrados são extremamente parecidos com carcaças - ou papos-secos -, também elas torradas até perto da carbonização. A única diferença reside nas rachas: a do café é, por norma, subtilmente curvada em forma de "S", enquanto a das carcaças é aleatoreamente tosca.
Imaginem pois a conjugação das seguintes situações:
Primeiro: um grão de café cuja racha, por um inexplicável erro de produção, não descreve uma curva tão acentuada, como está estipulado que descreva, segundo os cânones mundiais de fabrico de café; Segundo: o erro ter sido tão grande que, em boa verdade, a sua racha não descreva qualquer tipo de curvatura, sendo até algo tosca...; Terceiro: uma besta qualquer, que é capaz de acreditar que um papo-seco pode minguar caso seja deixado tempo demais dentro de uma torradeira ligada; Quarto: uma pessoa capaz de dizer precisamente isto à besta; Quinto: o Sr Grão Tosco ter caído exactamente dentro do pacote comprado pela pessoa referida no ponto anterior; Sexto: essa pessoa ser, também ela, pouco sã e ter o costume de olhar cada grão de café que compra, reparando por isso no Sr Grão Tosco; Sétimo: essa pessoa dizer aquilo à besta sua conhecida (este conhecimento pode ser tido como o ponto sexto e meio); Oitavo: a besta confundir efectivamente o grão de café com uma carcaça esquecida dentro de uma torradeira!; Nono: a besta ter muita fome; Décimo: a besta ter uma faca afiada, daquelas que até um grão de café torrado são capazes de cortar ao meio!; Décimo primeiro: a besta gostar de torradas com compota e ter compota em casa.
É desta forma que alerto as entidades competentes, para os perigos inerentes à produção defeituosa de café e para a necessidade de manter esta indústria sob rigorosa supervisão, não queiramos nós depararmo-nos com acontecimentos menos agradáveis, como a notícia de intoxicação alimentar de um qualquer atrasado mental, por gustação e posterior ingerimento de um grão de café torrado, com compota de framboesa.
PCH

segunda-feira, maio 16, 2005

Populismo

Há uns tempos roubei um livro à prateleira da minha irmã, para ler enquanto devia estar a estudar, desculpando-me assim de não o fazer.
Era um livro pequeno mas surpreendentemente lúcido. Daqueles livros que fundam a sua grande virtude na capacidade de estruturar e organizar ideias, em nós dispersas. O livro chamava-se Abrigos, foi modestamente editado (mil exemplares) pelas Edições Cotovia e reúne em si uma selecção de crónicas e palestras, escritas e dadas, respectivamente, por António Pinto Ribeiro (APR).
Não era um livro de fácil compreensão, nem foi escrito para ser vendido. Foi escrito, isso sim, para preencher mais uma lacuna de conhecimento, não se dirigindo portanto ao público em geral, mas àquele que nele estivesse interessado (ou que lhe pusesse a mão por acaso - como eu). Confesso que exige do seu leitor um nível de conhecimento intelectual superior, o que de vez em quando me exasperava a meio da sua leitura, tanto pela minha ignorância como pela relativa vaidade da sua escrita. Outra coisa não seria no entanto de esperar, de um livro dirigido a um público tão específico, através do qual nada faria mais sentido senão que o escritor aproveitasse ao máximo, a possibilidade de expor despreconceituosamente as suas ideias. De certa forma, o livro foi pouco "tirado" não por falta de qualidade do seu conteúdo, mas por se dirigir a uma qualidade de público pouco abundante no nosso país.
As várias crónicas e artigos e adaptações escritas de palestras, que compõem o livro, centram a sua atenção no entendimento (mais do que no estudo) do estado em que se encontra a Cultura em Portugal. António Pinto Ribeiro joga assim com inúmeras variáveis abstractas (qualidade da cultura, estilos de cultura - cultura de massas e cultura restricta, papel da cultura no bem-estar das sociedades, relação da cultura com a política, entre outras) balanceando-as com notável agilidade e acutilância e expondo-nos a sua interpretação pessoal, de inegável valor, de uma forma inquietantemente clara. Digo inquietante porque o retrato com que no final se nos deparamos é isso mesmo (aflitivo até!).
Lembrei-me de referir este livro porque no Sábado o SLB ganhou:
É que numa das crónicas editadas em Abrigos, APR consolida e ilumina em três resumidas páginas, uma mistura de impressões que há já algum tempo, dijunta e obscuramente, habitavam a minha cabeça. De forma ainda mais sintética, aqui exponho os traços gerais da crónica:
Populismo é o nome da epidemia que ultimamente se tem imposto na mentalidade da nossa (europeia) sociedade. Surgiu na América do Sul sob a forma de manifestações sociais de grande aparato. Na Europa civilizada transformou-se em ideologias políticas extremistas, tais como o fascismo italiano ou certas correntes socialistas. Associava-se pois o Populismo, à manifestação de povos com graves dificuldades de sobrevivência, que assim tendiam a apoiar-se em ideologias extremistas, como que depondo na revolução àquelas subjacente, a tarefa da resolução dos seus problemas. Hoje em dia o Populismo já não é só sintoma de pobreza física e material, propagou-se (mutou-se como uma bactéria!) e adaptou-se ao novo estilo de vida das sociedades: deixou de ser "um reflexo de sistema, transformou-se agora numa ideologia com instrumentos de disseminação.". O Populismo de hoje em dia é uma "forma de fascismo 'light', que utiliza a TV generalista, uma comunicação reduzida ao slogan e o estabelecimento de uma relação emotiva com os cidadãos", porque é aí que o ele nasce: na necessidade sentimental do cidadão, de encontrar um sustento emocional, quão receptivo quanto desejável.
A era do consumismo gerou sem dúvida uma mudança nas expectativas das populações em relação à Cultura: o expectador deixou de ser "humano", para passar a ser um "consumidor" de arte. Até neste campo as "regras do jogo" mudaram! Nesta sociedade do consumismo, a aspiração das empresas é o lucro. Isto transformou as organizações culturais e todo e qualquer meio de difusão de cultura, em autênticos instrumentos de propagação do Populismo: a grande maioria da cultura hoje em dia produzida pretende, não mostrar-se ao seu expectador, sujeitando-se à sua avaliação, mas poupar-se a isso mesmo, oferecendo-lhe aquilo que sabe que ele aceitará em maior quantidade, isto é, aquilo que lhe trará maiores lucros!!
Assim se vive no Reino do Populismo: a TV passa o Big Brother e o país chora quando Marco pontapeia Célia, e sofre de stress e ansiedade quando Cinha ameaça sair da casa, e vai a correr ao Hipermercado comprar as bolachas que têm x camadas de chocolate, e vive como se fossem suas as vidas reinventadas das revistas cor-de-rosa, e, mais grave de tudo, o povo fica-se por aí: não há mais nada, não se lêem revistas cor-de-rosa no autocarro a caminho de uma peça de teatro, nem se comenta o facto do Zé Maria ter ameaçado (quem?) suicidar-se para depois passar a temas mais interessantes, o Populismo é o princípio e o fim.
Mas mentia há pouco: a questão pode-se agravar ainda mais quando o Populismo ousa tocar os temas mais sérios da sociedade. Que o Populismo reine nos serões estupidificantes das casas dos portugueses, já é mau mas suporta-se. Porém, aquele Populismo que pessoas conhecidas e ideologicamente influentes, como Mário Soares ou Francisco Louçã, tossem cá para fora, é muito mais nocivo e muito mais perigoso e muito mais incontrolável. Apreciar um bom filme é muito mais difícil que apreciar um mau filme, até porque este não se aprecia, consome-se. Da mesma forma, entender e criar uma opinião pessoal acerca de um discurso bem estruturado e bem argumentado e com bases de conhecimento válidas, é uma tarefa sobejamente mais complicada, que ouvir os discursos publicitários enganosos e falaciosos, dos líderes políticos que referi.
Outro grave problema do Populismo é que este fundamenta parte da sua razão de ser, quando reescreve a realidade político-social actual da forma que mais lhe convém. Concretamente, o Populismo incute nas suas vítimas a ideia de que a democracia é um bem adquirido pelas sociedades e que está já estabelecida. Mas "a democracia é um regime incompleto em contínuo e necessário aperfeiçoamento". Assim, o Populismo através da assumpção da democracia como um bem que deve ser a priori adquirido e um direito de todos os cidadãos, gera uma insatisfação nas populações que as induz à inevitabilidade de se revoltarem. Daí a necessidade que Mário Soares tem, de se referir a ícones políticos da nossa sociedade, como "grandes democratas" e de justificar as suas ideias políticas (como aquela segundo a qual, Portugal já teria sofrido um golpe de Estado militar, não pertencessemos - sorte a nossa! - à União Europeia), por serem necessárias à garantia de um estado de democracia, que, segundo ele, se perdeu e se perde a cada momento.
Não se julgue porém, que o Populismo é emanado de forma inocente, o Populismo é uma forma de acção obscura, é uma autêntica ditadura dos sentimentos, ataca no subconsciente frágil das pessoas pouco treinadas no exercício do intelecto, promete-lhes momentos de verdadeiro bem-estar, como qualquer droga, só que neste caso a ressaca é geral...!
O futebol transformou-se em puro Populismo e, por isso, o Benfica (a maior fatia do "futebol" português) é também fonte de Populismo. É também por isso que não suporto ver o Benfica vencer: não que tenha alguma coisa contra a equipa do Sport Lisboa e Benfica, simplesmente não aguento a sujeição ao Populismo que essa vitória gera, não suporto ver "preto no branco" a dependência emocional do povo português na vitória do Benfica. Porque a festa de sábado à noite não é natural, não é de um povo são, é antes de um povo que vive para o Benfica do princípio ao fim, que vive o Populismo desde o seu início até ao seu termo.
PCH

quinta-feira, maio 12, 2005


Fiz Blogo-plágio, mas achei que valia a pena sujeitar-me à vergonha (fotografia de baixo: nave espacial num dos Episódios de A Guerra das Estrelas).

quarta-feira, maio 11, 2005

Crítica à crítica

Regozijo de cada vez que leio uma daquelas críticas musicais, que de quando em vez surgem na Y, do jornal Público.
É fascinante ver como, aos olhos de quem as escreve, qualquer profissional da música não perfaz mais que uma promíscua amálgama de influências, a maioria delas retrógadas. Em poucas linhas, o jornalista, autêntico Erudito do Som, dismistifica e intelectualiza cada passagem, cada acorde de cada música, com bujardonas sonantes que nos deixam sem fôlego e incapazes de contra-argumentar, tal é a diversidade e a complexidade das adjectivações e referências utilizadas pelo Mestre do Som.
É que é por estas e por outras que eu não sou grande entendedor de música, e garanto-vos que o gostava de ser!, mas a ler artigos da Y não o serei nunca, quanto muito poderei manter-me informado!
Porque quando me dizem que um CD pode colocar "os 'brooklynitas' Gang Gang Dance lado a lado com a elite do 'novo rock', aquele que chega fracturado, agreste e oblíquo de uma realidade simultaneamente urbana e mística, com epicentro produtivo em Nova Iorque."; ou que o novo, "e demasiado conceptual", disco dos Coldplay mistura um pouco, "como é seu costume", de David Bowie, dos U2, de Manic Street Breachers, entre outros, numa "abordagem melodramática da cultura rock-pop dos anos 1990." (este até entendo no conteúdo, mas não compreendo na forma!), eu sinto-me o maior ignorante à face da Terra, no que diz respeito à cultura musical.
Ninguém lê críticas literárias que procurem exaustivamente fundamentar a prosa de um escritor contemporâneo, em correntes literárias forçosamente estabelecidas, como que a pretender justificar cada ponto final. As críticas literárias informam acerca do livro em questão, falam dele, dizem sobre ele e contextualizam-no de forma entendível, o que não é forçosamente o mesmo que dizer que o fazem de forma desinteressante e pouco fundada. Mas então porque serão tão incompreensíveis as notícias do mundo da música? Porque qualquer uma que eu leia me parece fabricada para satisfação pessoal do escritor e nunca para servir como fonte de informação do leitor...
Posso apenas estar a revelar "nua e crua" a minha enorme ignorância, mas sinceramente, e modéstia à parte, acho que não: acho que estes críticos musicais de que falo são uns pretensiosos pseudointelectuais, que desperdiçam todo o seu conhecimento (pois talvez realmente o tenham), na vaidade, pirosice ou presunção da sua produção literária. E tenho dito!
PCH

terça-feira, maio 03, 2005

Elias

Se há coisa de que sempre tive pena é de não conseguir trazer comigo, debaixo da minha língua ou arrumado entre os dentes, um bom punhado de histórias, daquelas engraçadas, caricatas e pouco comuns, para contar assim que me pareçam oportunas. Histórias daquelas que caem sempre bem a meio de uma conversa, seja para engatar uma menina, seja para tornar o ambiente de um jantar mais leve e bem-humorado. Histórias que são puros relatos da vida comum, satiricamente desbobinados.

Tenho-me pois perguntado se serei menos vivido que esses homens de barba rija e voz serena (porque é assim que eu os pinto em minha consciência), cuja língua está já lassa de tantas coisas engraçadas narrar. Se esses colossos da vivência, realmente tiveram a sorte de se verem deparados com situações absolutamente recombolescas e, ainda que maçadoras no momento em que se desenrolaram, perfeitamente hilariantes quando saídas da boca da afortunada vítima. Ou se simplesmente gozam do dom inato, de conseguir transformar o comum, num grotesco inspirado e divertido.

Ainda não sei, mas temo que seja a segunda suposição a correcta; o que muito me desanima porque vejo assim descartada a hipótese de alguma vez aspirar sequer a ser um homem-de-barba-rija-e-voz-serena-que-conta-histórias-com-piada, já que o dom destes é isso mesmo: um Dom (que eu não tenho!). Mas não vos maço mais com isto, vou antes contar-lhes uma história verídica com piada:

Certo dia, estava eu a caminho da Downtown Lisboa para fazer umas compras. Mentira!: Estava eu parado, à espera do autocarro, para me por a caminho da Downtown Lisboa para fazer umas compras, quando me vejo confrontado com a mais embaraçosa das situações: um senhor (assim o chamo apenas por respeito) escanzelado, dos seus 67 anos, talvez menos, barba grisalha e despenteada, auntêntica continuação de um cabelo em vésperas de inverno (rematado por um penacho amarrado por um elástico cor-de-rosa), dentes amarelos e quase inexistentes, envergando todo ele o fanatismo hippie dos anos 1950 (calças com um motivo indiscritível a 256 cores, ameaçando desintegrarem-se a cada esvoaçada passada, t-shirt de alças tamanho 8 anos, aparentemente de flanela (ou coisa que o valha!) e cheia de borbotos, sandálias de couro castanho todo ele "partido" pelo uso claramente além do prazo de validade e, ao peito, o dístico da Paz, preso ao pescoço por um atacador com nós a mais.) inicia a sua marcha decidida na minha direcção. A larga distância - 50 metros - que me separava do homem condedia-me ainda algum conforto. Porém - 30 metros -, os gestos furiosos que aquele ser disferia no ar, apontando acusadoramente na minha direcção e proferindo monossílados encadeados, espaçados por impropérios que eu apenas vagamente, e com alguma boa vontade, entendia, depressa me deixaram inquieto. Já lhe sentia o cheiro - 10 metros - quando me apercebi que aquele maluco me queria mesmo mal, e que, de entre alguns dos gestos que ele desenhava no ar se podiam nitidamente distinguir socos que apontavam na minha direcção - 2 metros - O homem queria bater-me!! 10 centímetros - só tive tempo de desviar-me, enquanto um típico português, daqueles que dobram 3 vezes o jornal, para depois o enfiar debaixo duma das axilas, empurrava o meu agressor para trás mandando-o ir dar uma volta. “Eu já o conheço! Deixe estar que ele não faz mal, é só maluco!” – dizia-me o português entretido com a situação – “Não se assuste!” – continuava – “E´só o susto...!” – ouvia-o eu ainda dizer. Que palerma! “É só o susto!”?! O gajo é parvo: por uma unha negra (de 10 centímetros) não levei com um um monte de ossos bem no meio da cara e aquele palhaço diz-me que foi só um susto e que já conhece o hippie?! Mas então estava à espera de quê? De me ver levar um "banano" e depois partir-se a rir porque “já o conhece”?! Apeteceu-me espetar-lhe um selo a ele e perguntar-lhe se o tinha assustado, mas fiquei-me apenas pelo sorriso amarelo e parvo.

Hoje em dia vemo-nos regularmente, eu e o velho, e regularmente o homem me espanca a 100, 30, 74 metros de distância, seja o que for, o homem não perde uma para me dar uma boa sova. Não sei que lhe fiz, mas sei que não estava sozinho quando o fiz, porque a cada 5 minutos o velho encontra mais uma vítima que vai assustando ou não, conforme o grau de "amizade" que existir entre os dois. Ele é o pânico aqui do bairro e eu chamo-lhe Elias!

segunda-feira, maio 02, 2005

A Retrete

Em boa hora aqui me encontro a escrever. As palavras amontoavam-se já, cá dentro, a princípio ordeiramente mas sempre quebrando a relação entre si. E então perdiam-se umas nas outras, enzimavam-se umas às outras, mas permaneciam assim desarticuladas (e desarticulando-me o pensamento), não se dissipavam, causavam-me náuseas.
Mas finalmente poderei desoprimir a cogitação e deixá-las falar,
Não estarei mais "orgulhosamente só" em meu íntimo território,
Finalmente posso desapertar a braguilha do pensamento e deixar sair,
Finalmente poderei vencer as salmonelas!

Que me desculpem a brutalidade da expressão: escrever hoje aqui, sabe-me tão bem como descansar as minhas duas nádegas, enrugadas de tão esforçada contenção, no trono, sarcasticamente límpido, do incontornável alívio.
Dependo deste blogue como dependo das retretes.
E se o que escrevo tem mau aspecto e até cheira mal, foi porque não me consegui conter...
PCH