O dia em que Pedrutustra não falou, só ouviu.
Naquele dia, Pedrutustra desceu a colina verdejante e florescida, onde durante 5 dias mas apenas 2 noites, estivera meditando sobre aquilo que lhe ocupava a alma, como que arrumando adereço a adereço as peças de roupa que compõem o seu roupeiro, testando as texturas e cores possíveis, e contemplando os defeitos e virtudes de cada combinação.
Mas naquela manhã Pedrutustra sentiu que devia descer o monte e assim encontrou um sábio eremita, sentado ao sol numa pedra, que lhe disse:
"Oh Pedrutustra, sentai-vos aqui que vos quero dirigir a palavra! Ouvi-me porque já não tenho quem me oiça, sentai-vos porque vos sei bom e sereno, sentai-vos e demonstrai como sois generoso!"
Os olhos negros do ermita logo atacaram Pedrutustra de compaixão e os joelhos cederam à pressão da bondade emanada a priori mesmo antes do pensamento, ignorando em absoluto a mal-temperança ou sequer rangendo de rancor.
Pedrutustra tinha germinado em si, uma concepção de amor ao próximo, que agora se assumia como prioritário na razão de ser das suas acções, mesmo até em relação ao próprio discernimento empírito do 'nosso' pensador.
Ainda os joelhos não tinham atingido a altura da cintura e já o eremita falava:
"Vedes esta ceara de trigo? Vede então com mais atenção: Vede como ela produz incessantemente, vede como labuta dia e noite para nos dar o pão, vede como canta e não geme quando o vento resolve tagarelar, e vede como ela é orgulhosa de si mesma, vede como balanceia de contentamento e felicidade, vede como baila vaidosa enquanto cresce, vede como é da cor do oiro o seu orgulho e a sua força de viver, e vede por último como continua a brilhar mesmo depois de ceifada: ela é a expressão da moralidade e como ela deviamos ser todos nós, homens na Terra."
"Felizes os que bailam, Pedrutustra, enquanto trabalham; felizes os que não gemem sozinhos, mas que cantam em coro; felizes os que encaram a razão da última da vida, a morte, com o mesmo brilho e orgulho e honra com que estão em vida; felizes porque eles sabem para o que vieram até cá abaixo; felizes porque sabem que Deus os abandonou em vida e que fê-lo porque assim deve ser feito; felizes porque sabem que devem ofertar tudo e reservar nada, rir o que há a rir e chorar o que há a chorar, fruir na bebedeira e contemplar na sobriedade."
"Felizes os que utilizam a moral e a oferta como instrumento primeiro e último da vida."
"Espalhai esta grande mensagem Pedrutustra, porque a mim já ninguém me dá crédito, porque a mim Deus abandonou-me e eu falhei, e assim me abandonaram também os homens!"
De novo Pedrutustra subiu a colina. Era preciso meditar sobre aquilo, era preciso decidir que fazer.
Assim ouvia Pedrutustra
Hoje desci do quarto, onde tinha dormido não mais que 5 horas e meditado sobre tudo e nada outras duas. Desci e fui à cozinha, no piso térreo. Quando lá cheguei vi o Gastão, meu cão, sobre a calçada solarenga do meu pátio, refastelado na sua habitual ociosidade. Mas o habitual pareceu-me hoje mais entristecido e solitário, mesmo abandonado, despertou-me compaixão e eu prontamente cedi, como é meu costume moral, e sentei-me junto de seu corpo.
Este, calado - obediente à sua anatomia - conversava com os olhos: falava da razão da vida, de como avaliar se a vivemos como Deus nos mandou ou se continuamos chorando pela orfandade de um Pai in loco, se fruimos como devemos fruir, se damos o que podemos dar, se choramos o que é de chorar e se rimos o que há para rir. Falava palavras sábias e perscutava mesmo a minha assimilação. Então calou-se e ficou a olhar-me esperando talvez resposta, esperando de certeza concordância.
"'Tás parvo Gastão!" - disse eu como se o Cão tivesse dito alguma coisa. E fui para cima meditar se não devia passar a passeá-lo regularmente, para que se deixasse daquilo.
Mas naquela manhã Pedrutustra sentiu que devia descer o monte e assim encontrou um sábio eremita, sentado ao sol numa pedra, que lhe disse:
"Oh Pedrutustra, sentai-vos aqui que vos quero dirigir a palavra! Ouvi-me porque já não tenho quem me oiça, sentai-vos porque vos sei bom e sereno, sentai-vos e demonstrai como sois generoso!"
Os olhos negros do ermita logo atacaram Pedrutustra de compaixão e os joelhos cederam à pressão da bondade emanada a priori mesmo antes do pensamento, ignorando em absoluto a mal-temperança ou sequer rangendo de rancor.
Pedrutustra tinha germinado em si, uma concepção de amor ao próximo, que agora se assumia como prioritário na razão de ser das suas acções, mesmo até em relação ao próprio discernimento empírito do 'nosso' pensador.
Ainda os joelhos não tinham atingido a altura da cintura e já o eremita falava:
"Vedes esta ceara de trigo? Vede então com mais atenção: Vede como ela produz incessantemente, vede como labuta dia e noite para nos dar o pão, vede como canta e não geme quando o vento resolve tagarelar, e vede como ela é orgulhosa de si mesma, vede como balanceia de contentamento e felicidade, vede como baila vaidosa enquanto cresce, vede como é da cor do oiro o seu orgulho e a sua força de viver, e vede por último como continua a brilhar mesmo depois de ceifada: ela é a expressão da moralidade e como ela deviamos ser todos nós, homens na Terra."
"Felizes os que bailam, Pedrutustra, enquanto trabalham; felizes os que não gemem sozinhos, mas que cantam em coro; felizes os que encaram a razão da última da vida, a morte, com o mesmo brilho e orgulho e honra com que estão em vida; felizes porque eles sabem para o que vieram até cá abaixo; felizes porque sabem que Deus os abandonou em vida e que fê-lo porque assim deve ser feito; felizes porque sabem que devem ofertar tudo e reservar nada, rir o que há a rir e chorar o que há a chorar, fruir na bebedeira e contemplar na sobriedade."
"Felizes os que utilizam a moral e a oferta como instrumento primeiro e último da vida."
"Espalhai esta grande mensagem Pedrutustra, porque a mim já ninguém me dá crédito, porque a mim Deus abandonou-me e eu falhei, e assim me abandonaram também os homens!"
De novo Pedrutustra subiu a colina. Era preciso meditar sobre aquilo, era preciso decidir que fazer.
Assim ouvia Pedrutustra
Hoje desci do quarto, onde tinha dormido não mais que 5 horas e meditado sobre tudo e nada outras duas. Desci e fui à cozinha, no piso térreo. Quando lá cheguei vi o Gastão, meu cão, sobre a calçada solarenga do meu pátio, refastelado na sua habitual ociosidade. Mas o habitual pareceu-me hoje mais entristecido e solitário, mesmo abandonado, despertou-me compaixão e eu prontamente cedi, como é meu costume moral, e sentei-me junto de seu corpo.
Este, calado - obediente à sua anatomia - conversava com os olhos: falava da razão da vida, de como avaliar se a vivemos como Deus nos mandou ou se continuamos chorando pela orfandade de um Pai in loco, se fruimos como devemos fruir, se damos o que podemos dar, se choramos o que é de chorar e se rimos o que há para rir. Falava palavras sábias e perscutava mesmo a minha assimilação. Então calou-se e ficou a olhar-me esperando talvez resposta, esperando de certeza concordância.
"'Tás parvo Gastão!" - disse eu como se o Cão tivesse dito alguma coisa. E fui para cima meditar se não devia passar a passeá-lo regularmente, para que se deixasse daquilo.


1 Comments:
At 5:42 p.m.,
Anónimo said…
Para haver sinceridade, só consegui ler a última parte deste post. Essa parte, sim, está linda ;)
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